Solastalgia. Você já sentiu isso?

Solastalgia. Você já sentiu isso?

Ana Claudia  Alleotti

Falar de solastalgia é o que me ocorre como resposta diante do mal-estar planetário causado pelos acontecimentos recentes envolvendo a floresta amazônica, o cerrado e outros lugares do Brasil e do planeta.

Em 2007 o pesquisador australiano Glenn Albrecht, da Universidade australiana de Newcastle, cunhou o termo para se referir ao sentimento de tristeza, angústia e ansiedade ligados à perda do ambiente natural, causada por fatores humanos. 

Nossa espécie vem se desenvolvendo há milhões de anos imersa em um ambiente cheio de plantas, animais, pedras, água, etc. O Homo Sapiens surgiu há cerca de 12000 anos e desde então tem sido um longuíssimo processo de transformação da natureza por mãos e mentes humanas. Até bem pouco tempo atrás esse processo era lento, mas conforme o desenvolvimento tecnológico foi se aprimorando, ele ganhou velocidade vertiginosa para nossa espécie e também para os demais habitantes do planeta e para os ritmos da Terra. 

Transformamos a natureza para o bem e para o mal. 

Hoje em dia, ao longo de uma vida humana podemos assistir a uma total descaracterização do entorno onde se vive, a tal ponto que não reconhecemos mais aquele lugar como “meu” lugar. Isso pode acontecer tanto em ambientes urbanos quanto rurais.

Surge então, a solastalgia. Uma nostalgia vivida no tempo presente. 

Sabe quando você olha para o entorno e se lembra com tristeza de uma árvore que havia ali? Ou dos pássaros que costumavam cantar na região? Quem sabe de um riacho onde nadava e pescava ou do céu estrelado à noite? Pode ser também que você se sinta assim por receber uma notícia de devastação de uma área natural, por saber que animais marinhos morrem por confundir plástico com alimento, e coisas deste tipo. Pois é, esse sentimento de vazio, de falta, de angústia é o que se descreve como solastalgia.

Na minha prática clínica está cada vez mais comum ouvir pessoas que manifestam uma angústia relacionada com fatores ambientais, com perda de espaços naturais e de biodiversidade, com insegurança alimentar, etc. Em alguns casos a pessoa sabe a origem da angústia, em outros, ela é difusa e sem clareza de sua origem.

Como resolver isso, se geralmente achamos que as tais mudanças no ambiente não dependem de nós? Se sentimos que não temos poder para impedir que se troque uma floresta por pasto, ou uma fazenda por um distrito industrial? E nem mesmo uma praça pela ampliação de uma rua?

Entender que se pode estar sofrendo de solastalgia é o primeiro passo para poder lidar com a situação. Reconhecer e dar voz à dor e à tristeza que se experimenta é curativo e libera energia emocional, e muitas vezes até física, para encontrar saídas criativas para construir ou reconstruir uma relação positiva e reconfortante com a natureza. Como parte de um trabalho de ecopsicoterapia procuramos colaborar para que as pessoas possam encontrar um outro sentido para ele. 

Faz parte do trabalho de todo ecopsicólogo e em particular daqueles que trabalham no campo da ecopsicoterapia, favorecer o despertar de  consciência e o crescimento na direção de sentir-se  pertencente a um mundo que pode ser solidário e amoroso com todas as existências que nele habitam.

Aliado a esta consciência maior de fazer parte de um sistema ecológico planetário pode surgir também a motivação para encontrar formas de agir no mundo e tomar para si a responsabilidade de ser um agente de mudança. 

E assim, volto a Albrecht para encontrar uma perspectiva esperançosa: a contraparte da solastalgia é a Eutierria, “um sentimento positivo de unidade com a terra e suas forças vitais, onde as fronteiras entre o eu e o resto da natureza são obliteradas, e um profundo sentimento de paz e conexão permeia a consciência”. Esta é a direção da busca e da transformação.

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