O Tempo do Conhecer-se

O Tempo do Conhecer-se

Ana Claudia Alleotti

“A busca da verdade sobre o mundo e sobre nós mesmos deve ser um empreendimento vigoroso.”
Nachman de Bratslav mestre cabalista- séc. XVIII
”Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses’’, famosa máxima inscrita na entrada do santuário de Delfos, na Grécia antiga, há mais de 2000 anos e cuja profundidade e urgência mantém-se atualizada.

O autoconhecimento é uma aspiração humana legítima. É uma busca para compreender os anseios, as dores, os “porquês”, os “como” e os “para quê” com os quais somos confrontados durante a vida. Nessa busca de entendimento podemos escolher vários caminhos e certamente a psicoterapia é um dos caminhos acessíveis.
Existem várias interpretações do que seja uma psicoterapia. Os termos gregos que formam a palavra são psique e therapeuein.
Psique costuma ser traduzido tanto como alma ou mente. A escolha do termo aponta para qual visão tende a abordagem. Mas ambos são válidos. Ocorre que na Grécia Antiga não havia a cisão que a ciência moderna e contemporânea trouxe para mente e alma. No grego antigo psiquê queria dizer “sopro, alento” e também borboleta, que traz consigo a noção de leveza, de movimento, de processos de transformação e de beleza.
Therapeuein refere-se ao cuidar, tomar conta, curar. Está associado à palavra therapeia, que é o ato de curar e de restabelecer a saúde. Na Grécia Antiga, o terapeuta, therapeutikos, é aquele que serve, que cuida.
Psicoterapia pode ser entendida, então, como o cuidar da psique. E psicoterapeuta como a pessoa que está à serviço desse cuidar.
Quando é hora de pensar em uma psicoterapia? Qual e quando é o tempo para conhecer-se? Para responder a isso é preciso responder a outra pergunta: o que é a saúde psíquica? Percebemos nossa saúde quando nos sentimos bem, quando conseguimos lidar de forma razoável com as dificuldades e conflitos inerentes à vida, quando estabelecemos relações boas e enriquecedoras com outros seres humanos – mas não apenas humanos, quando a alegria tem lugar em nosso fazer e ser, e em tantos outros momentos. De um ponto de vista junguiano, dizemos que a saúde psíquica está relacionada com a busca do senso de inteireza, isto é, quando percebemos que toda a nossa diversidade interna, tudo aquilo que povoa nossa psique está amalgamado em um todo que nos permite sentir e dizer: “isto sou eu”, de uma forma amorosa e respeitosa, e, ao mesmo tempo, reconhecendo as necessidades de ir além, de superar limites, conflitos, angústias e sofrimentos, de estar “a caminho” de nossa singularidade.
Na concepção junguiana da psique o senso de inteireza está enraizado no que ele chamou de Self ou Si-mesmo. Um dos indicadores da saúde psicológica de uma pessoa é o grau com que ela mantém uma relação com o Self. O que
significa isso? A idéia de Jung é que o Self está inconsciente para nós, mas é nele que repousa todas as informações a respeito daquilo que somos e daquilo que podemos vir a ser, aquilo que está ainda em potência. Quando nosso eu consciente continua enraizado no Self, seguimos, ainda que de modo inconsciente, suas diretrizes no sentido de nos tornar aquilo que somos, de realizar nossa singularidade e nos encontrar cada vez mais autênticos e livres de automatismos, de desejos alheios, de limitações aprendidas socialmente, e cada vez mais criativos e responsáveis por nosso existir e por nossa parcela na construção de boas relações com os outros e com o mundo.
Ocorre que é muito comum que situações adversas, que podem acontecer até na vida intra-uterina e mesmo antes dela, na história de nossos antepassados, criem uma ruptura ou um enfraquecimento dessa relação do eu consciente com o Self, trazendo uma série de consequências para o processo de crescimento pessoal. Em outras palavras, trazendo sofrimento ou até mesmo adoecendo a psique ou partes dela.
A psicoterapia oferece, então, um espaço e tempo de cuidado e proteção para que a pessoa possa estabelecer diálogos construtivos, de ampliação do conhecimento de si-mesma, de transformação de padrões inadequados de pensar, sentir e agir para padrões que restabeleçam o fluxo criativo natural e o processo de amadurecimento e crescimento pessoal.
O período de engajamento em um percurso psicoterapeutico é um tempo dedicado ao conhecer-se no qual o psicoterapeuta coloca-se como um acompanhante e um cuidador desse processo, colocando-se à serviço da psique e honrando o sentido mais profundo de sua atividade.
O tempo do conhecer-se não é linear nem unidirecional. O caminho de amadurecimento e regeneração é um esforço contínuo em direção a um bem-estar e harmonia psico-física, relacional e espiritual e, por isso, tem uma duração que, teoricamente, abrange todo o período da existência de alguém.
Na concepção da psicoterapia junguiana, conteúdos pessoais e impessoais (conscientes e inconscientes, símbolos e material de sonhos) ancorados no contexto de vida de cada um são a matéria a partir da qual se produzirá a transformação necessária para percorrer esse caminho. E quando se agrega a isso as visões da ecopsicologia, a natureza  se torna uma força catalisadora do percurso de autoconhecimento e crescimento pessoal.

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